segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Malharia circular

Texto publicado na revista Textília, nº 77/2010 - pag. 34
http://www.textilia.net/_arquivo/revistas_digitais/revista_textilia/ed77/default.html

No Brasil, até o início dos anos 90, as indústrias de malharia circular concentravam-se na região sul do país, principalmente em Santa Catarina. O algodão era a fibra predominante, os artigos produzidos eram restritos e em sua maioria resumiam-se em uniformes e agasalhos. Porém esse segmento vem ganhando cada vez mais expressão no setor têxtil. Ultrapassou o segmento de tecelagem plana substituindo produtos consolidados no mercado, como, por exemplo, os artigos para cama, mesa, banho, moda e decoração.

No setor da moda a malharia circular tornou-se a maior e mais importante área. Modernizou-se e diversificou-se a fim de acompanhar a dinâmica desse mercado. As máquinas estão cada vez mais versáteis e produtivas e foram desenvolvidos novos fios e misturas de fibras para atender a essa demanda.

Para acompanhar toda essa evolução é importante seguir algumas práticas que ajudam na qualidade e no desempenho do processo produtivo, práticas simples que no dia a dia acabam sendo esquecidas, mas podem ajudar muito na qualidade e produtividade, quando incorporadas ao processo.

As dicas descritas a seguir foram baseadas em técnicas teóricas na utilização de fios têxteis, que foram aplicadas e trouxeram bons resultados em várias malharias por todo o Brasil.

Gaiolas

Uma das principais vantagens do segmento de malharia circular é a de não precisar de preparação do fio, pois o mesmo é utilizado diretamente de sua embalagem em gaiolas individuais para cada máquina. Com isso pode-se realizar o tecimento com pequenas quantidades fio tornando o processo ágil, rápido e versátil.

Existem vários modelos, tipos e tamanhos de gaiolas, os dois tipos mais utilizados são:

Gaiola aberta, mais indicada para fios de filamentos contínuos, onde o fio não passa por dentro de tubos. Nela o fio é apenas conduzido por guia-fios, onde a área de atrito e conseqüentemente o acúmulo da eletricidade estática são menores.

E a gaiola fechada, mais indicada para fios fiados, com tubos que conduzem o fio sem deixá-lo exposto, pois liberam fibras voláteis que contaminam o ambiente.



Para ambas as gaiolas os seguintes cuidados devem ser observados:



· O passamento do fio deve ser idêntico em todas as posições, para reduzir as diferenças de tensão entre as posições;

· Os guia-fios devem ser de cerâmica, os quais resistem mais à abrasão e evitam a formação de sulcos no metal, que poderiam modificar a tensão ou danificar o fio;

· O carregamento da gaiola deve ser realizado no sentido horizontal, para evitar a concentração das embalagens da mesma caixa em faixas no tecido, pois as caixas podem conter embalagens com diferenças de acondicionamento, tais como datas de fabricação em períodos muito distantes, exposição à estocagem em locais diferentes e outros fatores que poderiam causar afinidade diferente nessas faixas;

· A distância do primeiro guia fio da gaiola até a embalagem deve ser aproximadamente a metade da medida de altura da embalagem (conforme figura 1). Desta forma o tamanho do balão formado pelo fio durante o desenrolamento é menor e conseqüentemente reduz o atrito e a sua tensão, evitando picos e enroscos;

· No caso de fios de alta torção deve-se evitar a pinçagem nos guia fios, ou minimizar a pressão desta pinçagem (conforme figura 2), a fim de evitar o acúmulo da torção e a formação de gavinhas que causam enroscos e quebras. Uma boa opção é utilizar tensores magnéticos, pois não permitem ajuste de tensão pontual e deixam todos os pontos uniformes.



· As embalagens devem sempre estar com o lado da virola para frente, pois o fio irá se desenrolar sem perigo de enroscar nas rebarbas do fundo da embalagem. No caso de fios torcidos, o sentido de desenrolamento deve ser observado para não haver sobretorção do fio devido o sentido de seu desenrolamento.

Alimentadores de fio

Os alimentadores de fio são de muita importância no processo pois têm a função de igualar e eliminar picos de tensão dos fios durante o tecimento.

Para máquinas mecânicas com comando direto de agulhas, que oferece possibilidades limitadas de ligamentos, são usados os alimentadores positivos que fornecem às agulhas quantidades iguais e constantes de fio. O ajuste da tensão pode variar conforme o artigo a ser produzido, mas geralmente fica em torno de 2% a 4% do título efetivo do fio em decitex. O mais indicado seria se trabalhar com a tensão mais baixa possível, evitando assim que as pequenas diferenças de tensão sejam amplificadas entre as agulhas, (conforme figura 3). Desta forma evita-se também que o fio absorva diferentes tensões de trabalho e conseqüentemente se revele com afinidade tintorial diferente, provocando barramentos na malha.


Outro ponto importante a ser observado é a quantidade de voltas do fio no carrinho do alimentador. É necessário haver voltas suficientes para puxar o fio sem a interferência da tensão do desenrolamento, mas não pode haver tantas que causem a ruptura dos filamentos dos fios devido ao atrito entre eles. O ideal é manter o fio com 10 a 15 voltas no carrinho.

É necessário sempre verificar se as polias do alimentador estão bem encaixadas na fita correta, a fim de evitar alimentações diferentes.

Nas máquinas que apresentam muitos sistemas com consumos diferentes (Jacquard), são utilizados os alimentadores por acúmulo, os quais enrolam uma quantidade de fio em suas polias para esperar que as próprias agulhas puxem o fio, mantendo a tensão baixa e uniforme. A variação de tensão de desenrolamento do fio para esse tipo de alimentador é muito ruim, pois ele não consegue igualar essas diferenças. Assim não recomendamos o uso de embalagem com grandes diferenças de tamanho entre elas.



Tecimento

No processo de tecimento existem alguns cuidados que podem não ser necessários quando o fio está perfeito, porém, podem ser de grande ajuda para corrigir ou amenizar pequenos problemas que todo processo, vez ou outra apresenta, e que nem sempre é possível prever. É importante que estes cuidados sejam praticados como um padrão do processo, independentemente da origem do fio.

Um dos cuidados com a máquina que pode ser incorporado a rotina de manutenção é a checagem não somente das agulhas, como das partes da máquina que entram em contato com o fio, pois com o desgaste pode ocorrer formação de sulcos nestas áreas. Tais sulcos podem ocasionar quebras de filamentos, desfiamento do fio, aumento da irregular tensão e até mesmo rupturas do fio. Esse fato se agrava muito quando é utilizado um determinado título de fio por um longo período e após este fio é trocado por um título mais grosso que não se encaixa no sulco formado pelo título anterior, sofrendo grandes danos pelo atrito (conforme figura 4). Nestes casos o melhor a se fazer é observar essas partes e substituir as que estiverem com problemas.




Um ponto que não é dado muita importância, devido até a falta de uma medida para controlá-lo e, conseqüentemente, tornando-se difícil sua a padronização e seu controle é a tensão de enrolamento da malha. Este ponto é muito importante para todo o processo, pois ajuda a controlar o tamanho do ponto da malha (gramatura), em conjunto com a tensão do fio e regulagem do ponto da máquina. O equilíbrio entre eles depende muito de quem regula a máquina e pode variar muito, porém, o que deve ser levado em conta é que a tensão do enrolamento do tecido influencia muito na tensão do fio sobre as agulhas. Quanto maior for sua tensão, maior é o desgaste gerado às agulhas. Alguns fios têm maior coeficiente de atrito o que amplifica muito esse desgaste. Por exemplo: fios de Rayon, Poliamida, fios com pigmentos abrasivos, titânio (para tornar opaco), Carbono preto (pigmento), fios de filamento contínuos retorcidos e outros.

Por isso no geral é melhor se trabalhar com uma tensão baixa, o mínimo para manter o bom andamento do tecimento.

Outro ponto muito importante nas máquinas com dupla frontura é o perfeito nivelamento e centralização do disco em relação ao cilindro, pois isso interfere diretamente no tamanho da malha que pode variar com a distância entre o disco e o cilindro causando barramentos (sombras) na malha de metade do raporte, ou seja, divide o raporte em duas faixas. Esse problema não tem nenhum relacionamento com o fio, porém é muito confundido com problemas dessa origem.

A Galga ou finura da máquina deve levar em conta o título do fio, pois se excedida pode causar muitos problemas no processo e no artigo produzido, tais como: mau andamento, excesso de quebras das agulhas, desgaste rápido, instabilidade do artigo produzido, e outros. Abaixo temos uma tabela para referência entre título e finura da máquina.

Nota: No caso de fios retorcidos, pode-se exceder os limites da titulagem recomendada devido à torção que comprime os filamentos e os tornam menos volumosos.

6 comentários:

  1. Caro Mario luiz,gostaria de saber em se olhando o tecido,parte interior e exterior deve se regular a parte do cilindro ou do disco da maquina.

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  2. Gostaria de saber quais são as marcas de máquinas mais indicadas para tecimento de 1/2 malha penteda 100% algodão para camisetas.

    MAria Luiza Neto

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  3. Cara Maria Luiza Neto,

    Gostaria muito de te ajudar, porém não posso publicar minhas opiniões pessoais a respeito de tais empresas no blog. Peço que entre em contato pelo meu e-mail, clique em visulizar meu perfil completo, lá tem um link para meu e-mail.

    Obrigado pelo comentário.

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  4. Sou aluno do curso de gestao em Moda
    Universidade Anhembi Morumbi

    Solicito informações a respeito dos prós e contras da malharia circular.

    exemplos e graficos se possivel.

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  5. Caro Mestre Estilista,

    Gostaria de lhe ajudar com as informações solicitadas, porém necessito de um maior direcionamento para o que realmente precisa. Você é um investidor e gostaria de investir em uma malharia? Você estaria procurando os prós e contras da malharia circular referentes ao custo de produção, custo de investimento, características técnicas do tecido e aceitação do mercado? Gostaria de comparar com as outras opções na área têxtil, tais como tecelagem ou malharia de urdume?
    Se preferir pode me enviar um e-mail
    mlaantonio@hotmail.com
    Att.
    Mario Antonio

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  6. Fora o seguimento de moda, confecção de roupas e uniformes,cama mesa e banho, quais seguimento eu consigo colocar minha malha. Ouvi falar de dublagem, mas não consegui muitas informações à respeito. Tive uma malharia que fechou as 06 meses, e estou com uma Mayer BNS-4 30/28 90 alimentadores, 4 pista completa, cilindro extra finura 24, 1991 com kit lycra que já me aconselharam vender para o ferro velho, gostaria de tentar produzir algo de baixo custo com ela.

    Márci Bueno

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